João Moreira     |       27 mai 2018

A culpa de Karius

“O goleiro sempre tem a culpa. E se não tem, paga do mesmo jeito.”

O genial escritor uruguaio Eduardo Galeano sacramentou em trecho de O Goleiro, capítulo do formidável O Futebol Ao Sol E À Sombra, a pecha de vilão que sempre estará à espreita de qualquer ser humano que se candidate a atuar na ingrata posição debaixo dos paus.

Na noite deste sábado em Kiev, Loris Karius viveu na pele parte da frase de Galeano. Ele teve a culpa. E não há como ousar dizer que foi algo diferente disso. O camisa 1 do Liverpool já está com o nome sujo no Serasa de tão grandiosa que é a dívida do alemão com o torcida dos Reds. Dívida essa que nunca será paga. Não porque Karius não possa se redimir e dar um título ao Liverpool graças a grandes defesas. Não por isso. Mas sim porque o dia 26 de maio de 2018 nunca irá se repetir. Está sacramentado. Os torcedores que foram à Ucrânia, que assistiram o duelo na TV, quem de alguma forma parou a vida por 90 minutos em função do futebol, todos eles lembrarão para sempre do dia em que Karius deixou o sonho de milhares de apaixonados escapar por entre as mãos trêmulas e frouxas.

Karius tem noção da dor que causou. Isso não o inocenta de sua culpa, mas engrandece o homem que se veste de goleiro em sua vida profissional. Logo após a partida, zonzo e atordoado pela catástrofe, o jovem de 24 anos ainda com o rosto molhado pelas lágrimas amargas da derrota, dirigiu-se aos leais torcedores ingleses para pedir perdão. A resposta da arquibancada veio em forma de palmas. O estalar das mãos traduziam muito mais um sentimento de pena e compaixão do que incentivo e admiração pelo guarda-metas. Infelizmente, essa é a realidade.

Realidade esta que deve ter sido ainda mais dolorosa na primeira noite de sono do goleiro após a trágica performance. Quer dizer, isso se existiu mesmo essa noite de sono. Não deve ter sido fácil pregar os olhos com a cabeça encostada no travesseiro. A cada carneirinho que pulava a cerca, vinha um chute do Bale ou então um Benzema para atrapalhar o descanso. Não há emissora de TV no mundo que tenha gerado tantos replays do primeiro e último gol do Real Madrid como a cabeça de Karius. Na imaginação, Karius já socou a bola de Bale pra longe, já deu um chutão pra frente na saída de bola bem longe do Benzema e, acreditem, já até se viu erguendo a taça no estádio Olímpico de Kiev. Ah, como o mundo é mais bonito e doce em nossas cabeças.

De volta à realidade, Karius agora terá que conviver com a pior das companhias: a solidão. Ele será a partir de agora o homem que dispersa rodinhas de conversas quando chega, o cara que ninguém quer ficar ao lado na hora de pousar pra foto, o sujeito que ninguém quer entrar no elevador junto e, o mais cruel neste momento, o goleiro que nenhum torcedor do Liverpool quer em seu gol. E não adianta culpar ninguém por essa situação, afinal, ele mesmo escolheu ser goleiro. Se tivesse ouvido o mestre Galeano, a história poderia ser outra.

“Com uma só falha, o goleiro arruína uma partida ou perde um campeonato, e então o público esquece subitamente todas as suas façanhas e o condena à desgraça eterna. Até o fim de seus dias, será perseguido pela maldição.”

Foto: www.independent.co.uk